sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A VERSÃO DO POBRE PRÍNCIPE


Tem certas coisas que não entendo em absoluto. Uma delas é TER que herdar até mesmo um estilo de vida que não desejaria nem mesmo para o seu cachorro.

O caso é que decidiram que um príncipe tem que casar.

Eu sei o que meu pai passou com minha mãe e vi, muito bem, as briguinhas entre os casais que sempre freqüentaram o nosso palácio.

Por que eu desejaria uma coisa dessas para mim?!

Enfim, lá fui eu para um tal de baile em que eu escolheria a que falasse menos – essa foi a minha condição para me casar com quem mal olharia para a cara o resto da minha vida.

Assim que cheguei era um tal de "ohs","meu deu", "meu príncipe" e sei-lá-mais-o-que, que nem olhei para mais ninguém. Até aparecer uma moça com um vestido para lá de moderninho, com um ar de culpada na cara, e evidentemente vinda às escondidas.

Dancei com ela a noite toda. Não abri a boca e, para minha surpresa, a criatura não falou nada. Ou o sapato estava doendo no pé, ou era muda.

Então, sei lá o que deu na criatura, saiu correndo como uma louca, deixando-me como um pateta no meio do salão.

Desolador... Tive que sair do salão... Na verdade, ela me fez um favor enorme, claro. Não precisaria ficar fazendo o papel de idiota a noite toda. Disse a todas que já tinha escolhido. Ao assessor desesperado disse que tinha sido aquela que tinha saído como doida.

Depois, ele me traz um chinelo – horrível e velho, por sinal. Disse que era o sapato da moça.

Disse para ele achá-la que eu me casaria com ela. Claro que haveria um monte delas dizendo que o chinelo era delas. Teria outro baile, e outro, e outro...

O caso é que ele achou a bendita moça.

Acabamos por nos casar.

Ela realmente não fala muito.

Mas, se por uma fatalidade do destino eu disser alguma coisa que a desagrade, eu vejo seu queixo levantar levemente, seu olhar me fuzilar "ternamente", e tenho a certeza que aquela droga de uniforme de gala que tenho que usar vai estar inutilizado.

Ela já conseguiu terminar com três deles neste ano e fui obrigado a utilizar ternos caríssimos.

O próximo evento vai ser quarta-feira. Estou pensando no que posso falar para irritá-la. O terno novo que mandei fazer é muito bonito e tem um caimento perfeito. E combina com o vestido que ela vai. Só espero que, de pirraça, ela não use aquele batom vermelho horroroso.

Humm...

******

Além de Cinderela, também brinquei com Chapeuzinho Vermelho e João e Maria. Estas histórias são irresistíveis! :))

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

CINDERELA


"Querido Diário,

Aquelas duas bobocas espalharam a roupa toda pelo quarto e tive que arrumar tudo, como se eu, euzinha, tivesse feito a bagunça.

Fora isso, aquele ser chamado "madrasta" acha que sou mágica e consigo cozinhar, limpar a casa, costurar e ser feliz e radiante o dia inteiro. Esquece que eu também tenho a bendita TPM todos os meses. Sorte dela que desconto tudo picotando os vestidos das meninas e coloco a culpa nas traças.

Hoje chegou uma notícia de que o príncipe sonhado de toda e qualquer garota do universo está procurando uma esposa para ser feliz para sempre ao seu lado.

Imagina a histeria que tomou conta das mulheres de casa. Tá... Eu me incluo. Só que eu picotei mais um pouquinho o vestido cor-de-rosa daquela perversinha, ao invés de ficar gritando pela casa "ele é meu, vou me casar com ele!".

Bom, o caso é que já ficou decidido que eu só vou se deixar a casa um brinco e tiver roupa decente para ir. Ou seja, vou ter que fazer o meu vestidinho fashion para poder aparecer feliz da vida depois de uma faxina miserável."


"Querido Diário,

Eu ainda trucido aquelas duas mocréias!

Para minha sorte, que está bem longe de poder ser chamada de sorte, aquela porcaria de vestido cor-de-rosa, que cansei de furar, parecia mais uma renda exótica que a criatura "amou"! Logo... A outra também queria um igual!

E para quem sobrou a tarefa de arranjar "traças" o suficiente para fazer um trabalho daqueles? Para mim, claro, que passei mais de duas horas no banheiro furando, de raiva, aquele vestido azul horroroso. Bom, com os furinhos ficou melhor.

Daí, que o meu vestido nem consegui achar um paninho decente para imaginar o que fazer com ele – com ou sem furos.

Restou limpar a casa."


"Querido Diário,

Consegui salvar da ação de uns ratos famintos, uma seda prata fantástica! Evidente que escondi dos olhares malignos daquelas três.

Só não consigo tempo para fazer o meu vestido! E mesmo que fizer, que sapato vou usar? Só se for dessas rasteirinhas vagabundas que eu tenho para ficar em casa, que é o que tenho hoje. Duvido que elas me dêem qualquer coisa de presente..."


"Querido Diário,

Estou exausta!

Já limpei a casa duas vezes de ponta a ponta. Arrumei aquelas malucas desvairadas e mais a minha madrasta.

É hoje o dia do evento, lá com o tal príncipe maravilhoso.

Elas já foram, claro, senão nem estaria escrevendo agora. Mas antes fizeram o favor de jogar um monte de porcarias no chão para eu limpar antes de sair.

Agora, sair como?! Nem tenho vestido! Só uns cinco metros de uma seda caríssima, descalça, e uma vontade louca de ir. Só!!

Opa! Idéia!! Ah, só você, meu diário, para me dar idéias brilhantes!"


"Querido Diário,

Foi uma noite fantástica! Fantasticamente fantástica!!

Nada como ter excelentes idéias... Ai, ai...

Enrolei-me naquele tecido todo, bem justinho, preso só no ombro e uma prega safada na frente, presa com o alfinete de brilhante que minha mãe me deixou. Pelo menos alguma coisa boa alguém tinha que me deixar, né!

Pequei uma das minhas rasteirinhas e enrolei com uma tirinha do vestido.

Prendi o cabelo, bem estilo casual.

Prometi duas travessas de doce de abóbora para o cuidador dos cavalos e ele me levou até lá, mas dizendo que viria me pegar à meia-noite, senão eu teria que voltar à pé.

Foi por pouco...

Tão logo cheguei, o príncipe não tirou os olhos de mim. Dançamos a noite toda. O ruim é que o miserável não falava nada, não perguntava nada e eu, acabei não falando porcaria nenhuma. Ele nem perguntou meu nome!!!

Deu a meia-noite e larguei ele ali, plantado como um bobo, enquanto eu saía correndo atrás da minha carona. Na corrida perdi um pé da minha rasteirinha. E ela tinha ficado tão bonitinha..."


"Querido Diário,

O assessor do tal príncipe apareceu hoje em casa. Foi atrás da dona da rasteirinha.

As duas zoiúdas olharam direto nos meus pés e perceberam que eu estou andando com uma bem velhinha. Perceberam na hora de quem era a rasteirinha.

Foi um alvoroço só. Disseram que era delas, disputaram à tapas aquele chinelo que não valia nada. Aliás, valia – um príncipe.

Um príncipe por um chinelo! Ou seria um chinelo por um príncipe?

No fim, o assessor, cansado de tanta gritaria, percebeu que eu existia. Olhou para o meu pé e me fez vestir. Claro que serviu direitinho. Fora o fato de eu estar com o outro pé no bolso do avental, já que não tinha dado tempo de esconder em outro lugar.

Resumindo, estou agora escrevendo da mansão do príncipe – que aliás, não sei ainda o nome – me preparando para o jantar em que seremos oficialmente apresentados como noivos.

Pode?! Só em contos de fadas, mesmo!"


"Querido Diário,

Se essa porcaria de príncipe der mais um palpite errado sobre o corte do meu cabelo, o tamanho do meu vestido, a cor do meu esmalte ou do meu batom, juro que furo todo esse uniforme de gala dele!"

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O TELEFONE TOCA



O telefone toca estridente.

- Alô?

- Mãe! Mãe! Eles me pegaram! – diz a voz agoniada, aos prantos.

- Quem está falando?

- Sou eu, mãe! Eles me pegaram!

- Eu, quem?

- Eu, mãe! Sua filha! Eles me pegaram!

- Eles, quem?

- Eles, mãe! Eles me pegaram!

Suspiro quase enfadado.

- Filhinha, faz o seguinte: liga de novo que você ligou para o número errado.

Tu-tu-tu-tuuuu


O telefone toca estridente

- Alô?

- Oi, tia... – uma voz simpática, sorridente.

- Oi...

- Sabe quem tá falando, né, tia? – ainda com aquela voz jovem, gostosa de ouvir.

- Não...

- É o seu sobrinho favorito.

- ...

- Sabe com quem está falando, né?

- Não.

Tu-tu-tu-tuuuu


O telefone toca estridente.

- Alô?

- Oi, tia.

- Oi.

- Sabe com quem está falando, né, tia?

- É o Júnior?

- É! Tudo bem, tia?

- Tudo.

- Sabe o que é, tia, eu estava aqui na Marginal e acabei batendo o carro. Não é nada grave, coisa boba, mas eu acabei ralando o outro carro e vou ter que pagar. Só que estou sem grana no momento... e... bom... pensei na senhora.

- Ah, sei... Qual o seu nome, mesmo?

- Júnior.

- Não, o seu nome. Qual o seu nome?

- Júnior!

- Tá. Qual o nome do seu pai?

- ... Adalberto.

- Certo... Escute, filho, você não está na Marginal e nem é meu sobrinho. Você deve estar falando de algum presídio ou coisa assim, ligação a cobrar, e achando que vou dar dinheiro para você. Então, faz o seguinte, já fala com meu filho que está aqui. Ele é policial.

Tu-tu-tu-tuuuuu


O telefone toca estridente.

- Alô?

- Alô, por favor, eu sou policial e estou atendendo um caso aqui na Marginal. Aconteceu um acidente, nada grave, e o rapaz deu este número de telefone. Ele mora aí?

- Luciano? – preocupada.

- Sim, é este o nome dele. É seu filho?

- Não, é meu genro. – já fazendo sinal para o marido verificar se o genro estava em casa, já que naquele dia não iria trabalhar, era seu dia de folga.

- Ele ficou ferido, mas já está sendo liberado. Só que ele amassou o carro do outro e a seguradora está pedindo um depósito para poder garantir o conserto do carro.

- Ah, sei... – já sabendo que o genro dormia, tranqüilamente no andar de cima.

- O valor é de 3mil reais e vou passar a conta para a senhora fazer o depósito agora.

- Não se dê ao trabalho. Acabei de falar com meu genro e ver na garagem que o carro dele está intacto.

Tu-tu-tu-tuuuu
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Foto tirada daqui.

Por incrível que pareça, os telefonemas realmente foram recebidos - dois aqui em casa, dois na casa da minha mãe.



terça-feira, 17 de novembro de 2009

PAPO SEM NEXO



- Ele disse que você não valia nada para ele?! – perguntou a amiga, assombrada.

- Disse. – magoada.

- Ele é um cretino! Como se mulher, fosse o que fosse, não tivesse valor algum! – revoltada.

- O problema nem é esse. – quase num fio de voz – Eu acreditei.

- Você acha que não vale, ou nunca valeu nada para ele?! É isso?

- Fui fácil, não fui? Entreguei-me de corpo e alma a troco de nada... – diz ela ressentida – Por que, então, iria querer que ele me valorizasse?

- Exatamente por causa disso! – já perdendo a paciência – Eu não acredito que você acreditou nessa lorota! Nem acredito que você ainda pense nele. Ele, sim, não vale nada!

- Bom... Eu até achei que tinha parado de pensar, sabe. – meio sem jeito – O problema são os sonhos.

- Que sonhos? – pega desprevenida.

- Eu tenho sonhado muito com ele. – começou a explicar – Ele aparece de repente, com saudades, querendo me ver, mas vai logo embora. Ou então o vejo no meio de uma discussão com alguém, mas não posso alcançá-lo. Sempre situações em flashes, quando nunca podemos falar um com o outro, realmente. É como se estivesse acontecendo algo a ele e não pudesse se comunicar comigo, mesmo querendo.

- E... e você acha que está acontecendo algo de errado com ele? – insegura.

- Espero que não. Espero que sejam só sonhos. Mas são sonhos que me incomodam e não me deixam esquecer dele. Entende? É como se entre nós existisse muito mais do que um relacionamento que não deu certo.

- O que, por exemplo?

- Existia a verdade... – com um brilho no olhar.

- Ah... Para com isso! – diz a outra, rindo no deboche – Ele diz que você não vale nada e agora você diz que entre vocês havia verdade? Tenha dó!

- A verdade não estava nas palavras e nem nos gestos, – tentando explicar – mas no olhar, na forma como dizia as coisas. Mesmo aqueles momentos em que tentava mentir ele sabia que eu conhecia a verdade.

- Então... – sem saber que rumo tomar.

- Então, quando ele dizia que eu não valia nada, estava dizendo, simplesmente, que não podíamos ficar mais juntos e que isso iria doer muito, para nós dois.

- E por que ele não disse isso, criatura?!

- Por que se ele dissesse eu faria de tudo para que isso jamais acontecesse.

- E você acha que ele estava certo? – estranhando tudo.

- O que sinto é que ele vai ser muito infeliz. Não que a felicidade dele estivesse junto comigo, mas o caminho que ele tomou não foi dos mais corretos. Vai machucar-se demais e não vai fazer ninguém feliz.

- Então... Por que não vai atrás dele? – já angustiada com suposições entre o improvável e o misterioso.

- Porque eu sei que um dia, nessa angustia toda que ele deve estar passando, ele vai decidir sozinho sua vida. Não vai ser por minha pressão, ou chantagem de alguém, ou imposição de outros. E quando ele fizer isso, seja que caminho tomar... eu vou ser uma, mesmo que distante, que estará morrendo de orgulho dele. Mesmo que nunca mais o veja.

- Você é louca! Não vale nada! – disse a amiga, sorrindo.

- É... Foi o que ele disse. – concordou ela – Vamos tomar café?

- Pensei que nunca fosse me oferecer!

- 'Bora!
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Foto: Ana Cecília, Sintra.
Este conto eu achei no arquivo "quase-morto". :)

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

GRANDES HOMENS

Este é para os meus meninos.

Coisa de mãe, que acredita que um dia vão ser grandes homens.

Isto me fez lembrar uma temporada em que passamos em Salvador, quando André trabalhou por lá. Eu e os meninos, na época com 2 e 3 anos, assistimos 3 vezes este filme...